João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Venezuela e Ucrânia, novas Sírias?

Não vejo com otimismo o que acontece agora na Venezuela e na Ucrânia. Mesmo levando-se em conta as diferenças entre os dois contextos, eu começo a ver sinais de potenciais guerras civis em formação.

Para uma guerra civil começar, normalmente, é necessária uma combinação de uma situação de conflito (entre grupos, etnias, visões de mundo) que  não possa ser equacionada pelo processo democrático, de  equilíbrio de forças entre os contendores (senão, um lado pode subjugar o outro com facilidade) e, normalmente, de apoios externos para os dois lados,  o que ajuda a manter e a ampliar o conflito. Um clima de ódio já existente ou criado e/ou amplificado também se torna essencial para o conflito se perpetuar e crescer.

Na Síria, a situação é essa. Um sistema montado para privilegiar a minoria (alauíta, cristã, do partido dominante) em detrimento da maioria; a não existência de democracia capaz de equacionar esse conflito de forma política; uma situação em que nem o Estado consegue esmagar os opositores e nem esses derrubarem o Estado, potências regionais ou mundiais  (Irã, Arábia Saudita, Turquia, Rússia, China) envolvidas no conflito e/ou combatendo por procuração e massacres sem fim aumentando sem parar o ódio de lado a lado. Perspectivas? Guerra até a exaustão.

Na Ucrânia, o cenário me parece semelhante. Um sistema político oligárquico e pouco representativo, uma população dividida praticamente ao meio entre ser “europeu” e ser “russa”, tanto em termos políticos como culturais e econômicos; uma situação de conflito de difícil resolução pois metade do país quer algo e a outra metade outra coisa; potências externas (Rússia, União Europeia, EUA) no meio e a violência aumentando o ódio de lado a lado. Como a Ucrânia está no meio da Europa, talvez se encontre uma saída negociada, especialmente porque as potências ao redor talvez não queiram uma guerra civil nas proximidades, mas as chances de guerra civil existem.

Na Venezuela, idem. De um lado, a democracia venezuelana (que ainda existe e funciona, apesar de alguns lampejos autoritários) não consegue absorver as diferenças entre uma parte do país que quer a permanência do modelo chavista (com suas vantagens e problemas) e outra que não o quer. O chavismo tem apoio popular substancial e controla a máquina do Estado e, apesar de alguma repressão estar acontecendo (mas, aparentemente, há um enorme exagero midiático a respeito), não há como eliminar todos os opositores, a não ser que o regime radicalize. Já os opositores, cada vez mais exaltados, também estão seguindo para o combate direto, mas com poucas chances de derrubar Maduro pela força. No exterior, os EUA com certeza estão a apoiar a derrubada de Maduro e Cuba (e talvez outros países) estão no campo oposto. Uma situação de quase empate, com o ódio crescendo de lado a lado, que pode levar ou a queda do chavismo, ao seu fortalecimento ou, o que me parece mais provável, a guerra civil.

Enfim, claro está que Ucrânia, Venezuela e Síria não representam a mesma coisa, mas espantam algumas similitudes. Infelizmente, o cenário que se avizinha não me parece positivo, a não ser que esses focos de incêndio sejam controlados o quanto antes. Resta ver se isso acontecerá ou se teremos novos incêndios para se juntarem ao sírio e ao de outros países.

 

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Publicado em fevereiro 20, 2014 por .
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