João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Porque Luciano Huck será o presidente do Brasil

Porque Luciano Huck será o presidente do Brasil

 

 

O título desse texto é obviamente provocativo e não indica que o autor tenha dotes de vidente, capaz de prever com precisão o que acontecerá nas eleições presidenciais de 2018. Aliás, num contexto de pós-golpe, fica a pergunta se essas eleições efetivamente acontecerão. O pressuposto da análise que se segue, claro, é que o processo democrático será retomado. No caso de uma transformação da ditadura “pós-moderna” (a que estamos vivendo) numa tradicional, é claro que esse cenário desaparece. O escrito também não pressupõe que eu esteja considerando o resultado que se apresenta como desejável, mas apenas como uma especulação válida.

Considero que Luciano Huck será o presidente brasileiro a partir de, antes de mais nada, um simples processo de eliminação dos principais candidatos. E, depois, por uma avaliação do que se espera de um presidente num momento de pasteurização da política, ascensão de autoritarismos e crise e renovação do modelo neoliberal progressista.

As perspectivas de uma vitória eleitoral de um candidato de esquerda ou meramente progressista parecem poucas. Depois do desgaste do modelo petista e de anos de ataque midiático sem trégua, a esquerda está claramente na defensiva e sua recuperação demorará anos, no mínimo. Além disso, a experiência dos últimos dois anos indica como a capacidade da esquerda e das forças populares em se mobilizar está muito debilitada. Reformas impopulares passaram no Congresso com resistência mínima nas ruas e isso apenas confirma o momento de inflexão da esquerda.

Lula seria a grande possibilidade de a esquerda (ao menos a petista) retomar o poder, dada a sua popularidade remanescente incontestável. Tenho dúvidas se uma possível vitória de Lula seria positiva para ele, para o PT e para o país, dado o clima hostil e os desafios que se apresentam. Não creio, contudo, que essa possibilidade é real. Ele será impedido de se candidatar pela Justiça, em processos no mínimo duvidosos. Se não for impedido pela Justiça, terá toda a mídia contra ele para impedir sua eleição. Se, ainda sim, for eleito, encontrarão um jeito de impedir a sua posse. E, se assumir, inviabilizarão seu governo. Ou seja, as chances de Lula existem, mas eu considero que o cenário não é favorável a ele.

Ciro Gomes poderia ser uma alternativa razoável para a esquerda. Ciro tem, contudo, problemas com a esquerda que alguns classificam como identitária (ainda que o termo merecesse melhor definição), que o considera machista, autoritário, etc. E, além disso, ele defende um modelo nacional-desenvolvimentista que é o mesmo, em essência, que o PT aplicou nos seus anos de poder. Sua proposta, na verdade, é que ele será capaz de aplicar a receita nacional-desenvolvimentista de forma mais eficiente do que o PT. Ele disputa, assim, o mesmo público que Lula e sofre um ataque midiático contínuo, o que explica suas dificuldades para ascender nas pesquisas.

Luciana Genro seria o símbolo dessa esquerda dita identitária, com grande apelo entre as ditas minorias, como gays, mulheres, negros e entre intelectuais e setores da classe média. O grande problema é que ela tem dificuldade em construir consensos que sigam além desses grupos, especialmente na grande massa popular. Já Marina Silva, se é que podemos considera-la de esquerda, tem uma popularidade razoável, mas a sua neutralidade contínua sobre tudo me leva a crer que ela não conseguiria votos além dos que já tem. A esquerda, em resumo, tem chances quase zero de ganhar as eleições de 2018.

No campo da direita, haveria a possibilidade de um candidato do PMDB, indicado por Temer. Talvez Henrique Meirelles, o fiador do governo frente ao mercado financeiro. No entanto, não apenas o PMDB nunca foi forte em eleições majoritárias, como o desgaste do governo Temer torna improvável uma candidatura própria viável. O mesmo, paradoxalmente, pode ser dito do DEM e do PSDB.

Como um dos grandes articuladores do golpe que removeu a presidente Dilma do poder, o PSDB deveria estar se preparando para a conquista da presidência em 2018. Ao se aliarem ao governo mais impopular da História, contudo, os membros do partido acabaram por dar um tiro no próprio pé. Além disso, a medida que fica claro que o partido está tão ou mais envolvido em escândalos do que o tão acusado PT, as suas chances eleitorais diminuem. Aécio, Alckmin e outros caciques tradicionais do partido têm chances menores do que seria esperado. Eles, em 2016, deram um golpe no seu tradicional inimigo, mas, paradoxalmente, talvez também tenham selado seu próprio fim.

No campo da extrema-direita, é claro que Jair Bolsonaro tem grandes chances. Seu discurso moralista e violento agrada aos setores conservadores da sociedade brasileira e ser pró-Bolsonaro, hoje em dia, é um ato de rebeldia. Se a direita tradicional oferece apenas o que está aí e a esquerda não tem proposta viável, defender Bolsonaro é uma atitude de protesto. Um protesto equivocado, mas protesto. Bolsonaro, nesse aspecto, se aproxima de Marine Le Pen e de outros líderes do populismo de direita. Isso tanto em ideologia, como por serem alternativas num mundo em que a direita liberal-progressista pouco oferece e em que a esquerda perdeu a sua mensagem.

Bolsonaro, contudo, enfrenta resistências e não são poucas. Uma parte substancial da sociedade rejeita suas propostas extremistas e as próprias elites manifestam seu desconforto com ele. O fato da revista Veja ter feito uma longa matéria contra ele é um sinal inconteste dessa resistência. Afinal, os donos do dinheiro querem estabilidade acima de tudo e Bolsonaro é uma incógnita.

Na verdade, Bolsonaro não tem praticamente nenhuma proposta que vá além de armar `as pessoas e atacar as minorias e o discurso politicamente correto. Num governo sob seu comando, as áreas que realmente interessam ao poder dominante (tributação, juros, política econômica) acabariam ficando sob o comando do PSDB, talvez com a continuidade de Meirelles na Fazenda. A essência do liberalismo ficaria intacta e é óbvio que a elite não sofreria a violência física e simbólica que ele procuraria desencadear. Ou alguém acha que um liberal de esquerda dono de um banco ou um homossexual rico teria problemas? Bolsonaro seria parecido com o atual presidente das Filipinas, desencadeando a violência do Estado contra o andar de baixo e permitindo que os moradores desse andar se matassem entre si.

Mesmo assim, ele significa risco e instabilidade e a elite financeira e a mídia só o apoiariam num cenário de oposição, por exemplo, a Lula. Para derrotar o PT, valeria tudo, até engolir seco e jogar as fichas em Bolsonaro. Um modelo não muito diferente do que ocorreu na década de 1930 frente ao fascismo. Em quase todos os países do Ocidente, as elites conservadoras e liberais o repudiaram, mas, quando havia a hipótese de uma vitória da esquerda, o sustentaram. Não seria diferente no Brasil de 2018.

O candidato favorito do establishment no Brasil era, claramente, Dória. Ele ganhou a eleição para a prefeitura de São Paulo com um modelo de política e de político claramente dentro do nosso tempo, próximo, por exemplo, ao de Trump. Ele dizia representar o novo, a anti-política: um empresário que não precisaria roubar, já que nasceu rico, e bom administrador, que daria um choque de gestão na cidade. Ele se apresentava também como um combatente contra a esquerda e a herança da gestão anterior, de Haddad.

O problema de Dória foi justamente ter ganho a eleição. Ele revelou, em poucos meses no poder, sua capacidade gerencial limitada e suas opções foram as típicas da direita liberal: corte nos gastos sociais (ou em qualquer política pública que beneficie as periferias) e benefícios (econômicos e simbólicos) aos mais ricos.

Seu desgaste, em termos de popularidade, começou logo no seu primeiro ano de governo, revelando como ele foi, e é, mais uma criação da mídia do que qualquer outra coisa. Um criador de fatos de facebook sem substância. Para piorar, ele se empolgou e se apresentou como candidato à presidência de imediato, o que lhe trouxe ainda mais desgaste, entre a população de São Paulo e no seu próprio partido. Dória triunfaria numa disputa com Lula, provavelmente, mas a minha impressão é que ele é um balão já em processo de esvaziamento.

Luciano Huck seria uma aposta perfeita para evitar os erros de Dória e criar uma alternativa à direita que supere facilmente Bolsonaro e a esquerda. Ele é muito conhecido, pelo que não precisa assumir sua candidatura de imediato. Como nunca teve um cargo público, não há como acusa-lo de corrupção (a parte questões menores, como a de apropriação de praia pública) ou incompetência. Como empresário bem-sucedido, apresentador da Globo e casado com uma apresentadora dentro dos padrões estéticos valorizados pela mídia, ele emana a aura de sucesso que o sistema e as massas valorizam.

Depois, ele é relativamente liberal em termos de comportamento, levando gays e negros para seu programa na TV, por exemplo. Isso desagrada os evangélicos e setores conservadores da sociedade, mas, num eventual segundo turno com Bolsonaro, ele teria o apoio de boa parte do centro-direita e até de parte da esquerda, disposta a tudo para barrar Bolsonaro. Em termos econômicos, ele representaria a continuidade e até o aprofundamento do modelo neoliberal, mas sem os radicalismos de Bolsonaro.

A vitória de Trump, nos Estados Unidos, foi vista por muitos como a derrota do modelo “neoliberal-progressista” que dominou o Ocidente nas últimas décadas. Esse modelo uniu o centro-direita e o centro-esquerda e combina o modelo econômico neoliberal com a abertura para os direitos das minorias, dos imigrantes, etc. Donald Trump representa a reação dos derrotados nesse modelo, como a classe trabalhadora branca dos Estados Unidos, e um neoliberalismo que se mantém na sua essência, mas que agora se associa ao racismo, ao sexismo, ao chauvinismo, etc. Uma vitória de Dória ou mesmo de Bolsonaro significaria a reprodução desse sistema no Brasil. Uma de Huck significaria uma reelaboração e regeneração do modelo e teríamos, talvez, um Justin Trudeau tupiniquim. Será esse o mal menor? É razoável acreditar que será no Brasil, país tão conservador e preconceituoso, que o modelo “neoliberal progressista” ganhará uma vitória ou teremos a radicalização nos levará a Bolsonaro? Não sabemos.

Já que as massas populares demonstraram pouca capacidade de reação nos últimos anos, serão, mais uma vez, as elites a decidirem quem chefiará o país. As opções, em outubro de 2017, me parecem estas. Em mais um ano, saberemos se o que escrevi foi mera especulação ou se fui capaz de identificar o ovo da serpente (ou os ovos da serpente) desde já.

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Um comentário em “Porque Luciano Huck será o presidente do Brasil

  1. DeLima Lima Lima
    novembro 2, 2017

    Excelente análise. “Acompanho o relator”, digo, acompanho o ensaista João Fabio Bertonha.

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Publicado em novembro 2, 2017 por .
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