João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Impressões da Turquia

Impressões da Turquia

 

Minha viagem a Istambul foi a minha primeira experiência num país de maioria muçulmana. A cidade em si vale a pena pelas suas mesquitas, seus prédios históricos, etc. Além disso, para um apaixonado pela história romana e pela Primeira Guerra Mundial, ver os famosos estreitos, a antiga Igreja de Santa Sofia e os restos das famosas muralhas de Constantinopla, do Hipódromo, etc já vale a viagem.

Minhas observações, contudo, vão além do turismo e se dirigem à sociedade. Eu esperava encontrar um país de Terceiro Mundo, mas não miserável, e foi isso o que eu vi. Há pobreza, crianças vendendo coisas nas ruas, moradias degradadas, etc. No entanto, a maioria dos pobres parece manter uma dignidade e um padrão de vida mínimos, tanto que eu não vi favelas, maltrapilhos pelas ruas ou algo assim. Istambul, grosso modo, tem o tamanho de São Paulo, mas a pobreza é muito mais chocante e visível na capital paulista ou no Rio de Janeiro.

Se compararmos os dados do PIB per capita (a riqueza do país dividida pelo número dos seus habitantes), o Brasil está um pouco acima ou um pouco abaixo, conforme o índice utilizado, da Turquia em termos de riqueza por habitante. Dois países, portanto, próximos em termos econômicos e cujos  índices de pobreza, contudo, diferem, a favor dos turcos.  O fato do índice de Gini – que mede a desigualdade de renda –  brasileiro ser bem maior do que o turco  turco indica que a resposta para isso está na desigualdade, como sempre o vilão da sociedade brasileira.

A cidade é bem cuidada e limpa (diferentemente de Napoli, por exemplo) e a sensação de violência e insegurança é pequena. Claro que sabemos da existência de um enorme submundo em Istambul (tráfico de armas, drogas, pessoas, etc.) e os riscos de criminalidade são grandes em certas áreas. Mas nem se compara às grandes cidades brasileiras e o fato da cidade ter gente nas ruas o tempo todo (o comércio não para nunca, as pessoas tomam chá e conversam em frente de casa) ajuda muito. Segurança é dada, em primeiro lugar, pelo cidadão ocupando o espaço público e isso fica claro em Istambul.

Os espaços públicos são bem cuidados, em linhas gerais, e sempre cheios. O trânsito é um caos completo, pois as regras de trânsito não parecem ter chegado na Turquia. Pegar um táxi na Turquia é para os fortes e talvez apenas os napolitanos não estranhassem muito.

Por outro lado, o serviço de transporte público parece funcionar bem e os bondes foram muito elogiados e realmente são muito práticos. Pensei em como São Paulo poderia se beneficiar de um sistema daqueles, mas se, apenas ao implantar ciclovias, o prefeito Haddad foi quase linchado, imagine se ele propusesse bondes? As empresas de ônibus, a mídia e a classe média o linchariam ainda mais. Mas é evidente que funciona.

O que  choca um pouco é a presença da religião em tudo, inclusive nas chamadas para oração a toda hora nas mesquitas. A memória de Ataturk está em toda parte, mas tenho a impressão de que sua herança laica e modernizante está em declínio frente ao novo governo islâmico.

Isso se reflete naquilo que mais choca um olhar ocidental: a questão feminina. Istambul é a vitrine da Turquia moderna e eu esperava mulheres com véus, mas não tantas. Em ambientes como shoppings, elas são minoria, mas eu calcularia que uma metade das mulheres de Istambul usa algum tipo de véu. Isso desde um simples lenço na cabeça até às cobertas dos pés à cabeça, só com os olhos de fora. Tanbém não vi, com a exceção dos shoppings, nenhuma mulher trabalhando como garçonete, vendedora, etc. Tudo é controlado pelos homens e a mulher está, em uma porcentagem muito maior do que no Ocidente, no ambiente privado. Não sei avaliar se isso é opressão, uma escolha delas por motivos culturais ou religiosos ou uma mistura de tudo. Um dos efeitos, contudo, é que a Turquia não tem o problema de denatalidade da Europa, pois há crianças por todo lado.

O que mais chamou a atenção, contudo, é como a Turquia parecia estar preparada e esperando a sua entrada na União Europeia. Até as placas dos carros estavam no formato europeu, faltando apenas o logo da UE. Escrevi vários artigos, nos últimos anos, sobre as dificuldades que a Turquia enfrentava para ser aceita no clube europeu e como seria difícil que isso acontecesse.

Frente ao que se tornou a UE, contudo, minha impressão foi a de que os turcos deveriam estar é agradecidos por eles terem sido barrados no clube. Como em todo o mundo, a economia turca está esfriando, até porque vários dos seus mercados – como a própria Europa – estão em crise. Mesmo assim, uma redução de crescimento que nem se compara à estagnação da Europa e muito menos ao colapso da Grécia, tão próxima. Mesmo com as guerras da Síria e do Iraque nas suas fronteiras, uma crise política interna e uma Europa estagnada, a Turquia continua a crescer.

Em primeiro lugar, isso acontece porque a Turquia não depende da exportação de matérias primas e alimentos para a China, como o Brasil. Dessa forma, a desaceleração chinesa a afeta, mas não de forma tão absoluta como no caso da Rússia ou do Brasil. Os turcos exportam produtos agrícolas e bens industriais básicos para boa parte do Oriente Médio e da Europa e esse vínculo ao mercado internacional é menos dependente da China.

Outro fator importante para a recuperação turca é que eles mantiveram a sua moeda – a lira turca – e parte dos efeitos da crise mundial foi amenizada pela desvalorização cambial, especialmente frente ao euro. Para o cidadão turco, houve perda de renda, mas a desvalorização permitiu que os desequilíbrios macroeconômicos fossem amenizados de outra forma.

Por fim, o déficit público e a inflação estão relativamente sob controle, mas não se busca uma paridade contábil perfeita, ainda mais num momento de crise mundial. Isso tem permitido manter a demanda pública e privada e colabora para que a economia não entre em crise.

Se estivesse no euro, a Turquia não teria como desvalorizar sua moeda, perdendo mercados na própria Europa e no Oriente Médio. E, se fosse constrangida às rígidas normas do Bundesbank, teria que cortar na carne para atingir os objetivos de rigor fiscal e inflacionários. O resultado seria diminuição do crescimento econômico e necessidade de ainda mais rigor fiscal, numa espiral desastrosa.

A inflação e o déficit público são problemas sérios, a serem enfrentados a todo momento e a longo prazo, mas sem adicionar à equação a questão do crescimento econômico e da redução da desigualdade (um dos maiores vilões quando se trata de impulsionar uma economia capitalista moderna), se torna um exercício de “enxugar gelo”. Não estando no euro, a Turquia pôde escapar dessa armadilha. Uma pena e uma decepção sem fim que seu colega nos “mercados emergentes”, o Brasil, tenha optado por essa política quando é evidente que ela não funciona e quando nem no euro nós estamos.

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Publicado em setembro 2, 2015 por .
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