João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Renzi, Hollande, Rousseff, Obama. Sobre a esquerda que não aprende com seus erros.

Renzi, Hollande,  Rousseff, Obama. Sobre a esquerda que não aprende com seus erros.

 

Na Itália, Matteo Renzi continua a fazer parte de um partido que se diz de esquerda, mas que, na verdade, se limita a tímidas reformas, normalmente em sentido contrário aos direitos trabalhistas, para  tentar adequar a Itália ao novo sistema liberal montado pela Alemanha de Angela Merkel. O mesmo está a acontecer com François Hollande na França. Não por acaso, uma parte dos trabalhadores está dirigindo seus votos para a extrema direita e não porque o racismo ou a xenofobia tenham aumentado dramaticamente na França. O motivo central é que, frente a uma União Europeia que se tornou veículo de transmissão do neoliberalismo na Europa e às políticas de austeridade da Alemanha e frente a uma esquerda que se limita a reciclar, com um pouco de moderação, a agenda liberal, o que sobra?

Na verdade, uma grande força progressista da Europa hoje é, paradoxalmente, Mario Draghi, o diretor do Banco Central Europeu. Ao ir contra, dentro do possível, a política suicida de austeridade dos liberais alemães (pois redução de dívida pública se dá em contextos de crescimento econômico, nunca em crises e em quase deflação), ele está permitindo uma sobrevida do euro e do projeto europeu e impedindo um  colapso ainda maior. No entanto, ele é apenas um operador do sistema e ver ele como progressista apenas indica como a esquerda europeia, na sua parcela mais expressiva, perdeu sua identidade. Talvez o moderado progressismo do papa Francisco esteja também adiante de partidos de esquerda que se limitam a discursos e a repetir a agenda liberal..

Nos EUA, Obama lança, agora, uma agenda mais a esquerda, querendo taxar as grandes fortunas e financiar programas de educação aos mais pobres. Uma pena que ele esteja a fazer isso apenas agora, quando o Congresso republicano provavelmente bloqueará tudo. Quando ele tinha as chances de realmente mudar as coisas, no início do seu primeiro mandato, ele foi tímido e quis se tornar uma espécie de “unificador da Nação”, o que, frente à intransigência republicana, claramente não deu certo.

Já no Brasil, Dilma caminha para a direita, ou para o centro, e lança medidas atrás de medidas para “agradar os mercados”, incluindo aumento de impostos e da gasolina, corte de despesas sociais, etc. Muitos dos seus eleitores se sentem traídos, especialmente aqueles que, na reta final, lutaram e brigaram nas redes para a sua eleição. Eu me incluo entre eles.

Claro que reformas e ajustes podem ser necessários, muitas vezes. O rigor das leis trabalhistas italianas talvez seja excessivo em alguns pontos e todo mundo sabia que um ajuste na economia brasileira era inevitável, especialmente porque voltamos ao dilema do “vôo da galinha” e ela parou de crescer, o que é uma catástrofe. Do mesmo modo, ajustes na política de concessão de pensões ou seguro desemprego talvez sejam justificáveis, pois havia abusos evidentes. Mas fazer isso apenas para agradar o establishment é algo que indica simplesmente a rendição.

Na verdade, ninguém esperava esses líderes fazendo a revolução ou coisa do gênero. O que os eleitores queriam era simplesmente que houvesse alguns avanços (contra a política de austeridade alemã e seus efeitos, a crescente desigualdade na Europa e nos EUA, etc.) e, quem sabe, até mudanças mais estruturais, como um sistema tributário que parasse de privilegiar o capital, uma política de câmbio e juros que apoiasse a, cada dia mais necessária, renovação da indústria (o que é aplicável ao caso brasileiro e, talvez, ao italiano), etc. Ou, nos termos de Pikett, cuja conferência assisti ontem, que a política fosse utilizada não para apoiar os “que tem”, como tem acontecido nas últimas décadas, mas para que os que “não tem” tivessem alguma chance.

A esquerda, contudo, parece ou intimidada ou sem iniciativas para fazer algo além de repetir a agenda dominante sem mudar estruturalmente nada, mesmo dentro dos padrões capitalistas . E, o que me parece pior, sem perceber que, mesmo fazendo isso, nunca conseguirá governar pelo consenso. Por mais que Dilma ou Obama façam o serviço sujo da direita, ela vai continuar a odiá-los simplesmente por sua origem política ou racial ou porque há os que se dispõem a fazer ainda mais, como o PSDB ou o Partido Republicano. E, ao trair seus propósitos mínimos, a esquerda vê seus eleitores se sentirem traídos e se afastarem, o que é ainda pior.

Se eu fosse americano, teria votado no Obama e, na Itália, o PD  ainda é melhor do que Berlusconi ou Beppe Grillo. No Brasil, mantenho a defesa da candidatura de Dilma frente a Aécio, como mal menor. No entanto, não sei se, em 2018, eu me engajaria de novo na campanha do PT com a mesma intensidade, a não ser para não dar o braço a torcer aos coxinhas de plantão e como mal menor. A decepção, para mim, é evidente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

Publicado em janeiro 22, 2015 por .
%d blogueiros gostam disto: