João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Manifesto da vitória

Manifesto da vitória

 

Nos últimos textos nesse meu espaço pessoal, fiz considerações a respeito da necessidade de reeleição da presidente Dilma. Agora, com a vitória suada nas mãos, está na hora de refletir e pensar o futuro. Vencemos por um triz mas, em 2018, se tudo continuar como está, a vitória não está garantida, nem de longe. É um momento para reflexão e para pensar em como usar bem os próximos quatro anos.

O PT foi vencedor nessas eleições, é claro. Perdeu o Rio Grande do Sul, mas conquistou Minas Gerais, diminuindo o Tucanistão, que cada vez mais se concentra na antiga Província de São Paulo (SP e PR). Perdeu deputados e senadores aqui e ali, mas a soma das perdas e ganhos não foi tão dramática assim. E ganhou a Presidência, apesar do jogo sujo da mídia, de todos os preconceitos e rancores que surgiram com força e da desinformação generalizada. Merecem parabéns todos os que brigaram, nas ruas e na web, pela candidatura Dilma.

Não nos iludamos, contudo. O PSDB demonstrou força e capacidade de aglutinar a direita ao seu redor e o Aécio nem de longe está morto. Pelo contrário, surge como nome forte (com Marina como vice, eu imagino) para 2018. Então, é hora de pensar como quase o neoliberalismo voltou e o que fazer para impedir isso no futuro. Volto a dizer: o PT hoje é um mero gestor do sistema capitalista, sem nenhuma perspectiva revolucionária, assim como o PSDB. Mas há maneiras e maneiras de gerir o capitalismo e a do PSDB é muito pior.

O PT precisa, em primeiro lugar, parar de enfiar a cabeça no chão, sem coragem de mexer em nada mais profundo para não afetar interesses. Chega de “paz e amor”, está na hora de agir. Está mais do que na hora de fazer uma reforma política que ao menos diminua a necessidade de acordos espúrios com o pior do país para a governabilidade; uma tributária que enfatize impostos sobre a propriedade e a renda não derivada do trabalho e diminua os que incidem sobre a renda do trabalho, o consumo e o investimento; uma de gestão (não a falsa tucana, mas uma real) que ajude a fazer o dinheiro público ser mais bem gasto, etc.

Fora isso, está na hora de reconhecer que o Mercosul precisa de um reset, que como está se tornou algo inútil; de reconstruir as relações com os Estados Unidos; de parar de se render toda hora ao mercado financeiro sobre juros e inflação e a outros lobbies e, especialmente, que esse modelo de crescimento via consumo e transferência de renda pública chegou ao seu limite e precisa ser revisto. O fato de o país não ter entrado em crise quando o mundo está em situação ainda complicada foi um grande mérito, mas insuficiente. O país não cresce mais, as demandas aumentaram e tem que se reconhecer isso e buscar alternativas, não ficar à espera que a China cresça e compre mais soja.

Outra coisa que é preciso reconhecer é que há setores da sociedade que nunca serão a favor do projeto petista, faça-se o que se fizer. A elite ganhou horrores no governo do PT e a classe média não sofreu, na prática, nenhuma crise, pelo contrário. Mas, na hora H, elas sempre seguem o carro conservador e não há nenhuma concessão, nada que possa mudar isso. Não há motivos para procurar o confronto com esses grupos e há coisas que podem e devem ser feitas (como diminuir a aliquota do imposto de renda ou criar outras para aliviar o assalariado ou melhorar o diálogo com os empresários), mas o anti-petismo – especialmente na classe média – se tornou questão cultural, de identidade, de “gente de bem” contra o resto, de horror pelos pobres que se aproximam e indicam que ela não é elite, como gosta de se imaginar. Além disso, ser antipetista se tornou uma espécie de bandeira dos que fazem da mediocridade uma forma de vida, dos que se orgulham de serem iletrados, meros técnicos ou simplesmente ignorantes. Foi espantoso, aliás, ver, nessa eleição, a classe média confundir mais anos de estudo (que ela tem, até pela sua posição no sistema) com conhecimento, sabedoria, o que ela não tem. A classe média se confirmou como o cão de guarda do sistema, aquela que, ganhando uns trocos a mais, se sente especial e defende suas prerrogativas com unhas e dentes. Nos anos 1930, ela virou fascista; nos 1960, golpista da UDN e, agora, isso o que vimos. Com esses grupos, eu não vejo como dialogar, como foi impossível, nas redes sociais, durante a eleição. Não há argumentos, discussão, nada que os possa convencer. Os deixemos para lá.

Há, contudo, setores que podem ser reconquistados. Uma economia que volte a crescer (o básico e essencial) e uma melhora nos serviços públicos pode trazer de volta para a esquerda os chamados “batalhadores”, os que se imaginam classe média, mas não são. Há também muita gente que votou no Aécio e na Marina não por babaquice ou preconceito, mas por real preocupação com o país. Eu mesmo consegui conversar com alguns, no facebook, durante a campanha e algo me chamou a atenção nesse grupo: eles eram civilizados e não respondiam aos gritos aos seus argumentos, mas procuravam discutir e defender o seu candidato, não repetindo os mantras de  “ladrões”, “Foro de São Paulo” e outras bobagens. Esses eleitores, sensíveis a fatos e argumentos, podem ser seduzidos se o quadro se modificar.

Mas só serão reconquistados se o PT reconhecer seus erros e fazer o país caminhar realmente em direção a um capitalismo mais dinâmico e democrático (crescimento e distribuição de renda), que é o máximo possível, a meu ver, para a esquerda no Brasil hoje. Deve também ouvir os argumentos dos liberais sobre porque as coisas vão mal, pois nem sempre eles estão errados, mas agir segundo suas ideias e planos, sem se preocupar em parecer “bonzinhos” para quem sempre vai odiá-los. Vide o erro do Obama com os republicanos antes de perder a maioria no Congresso.

O essencial, contudo, é que a esquerda decida lutar a “guerra cultural” nos padrões do Gramsci, ainda que não para os fins por ele imaginado, mas para garantir a democracia e os ideais progressistas. Está na hora de a esquerda finalmente fazer  aquilo que a extrema-direita diz que ela faz há anos, mas que não é verdade. A fúria absoluta da mídia contra o PT nessas eleições demonstra que os bons leitores do Gramsci foram as pessoas da direita, e quase deu certo.

Por doze anos, o governo do PT foi atacado sem limites. A mídia conseguiu passar a imagem, para muitos brasileiros, que vivemos num inferno pré-bolivarismo ou bolchevismo; que o PT é a maior central de corrupção do universo, etc. Também conseguiu criar a impressão de que só ignorantes e atrasados podiam ser petistas (ou simpatizantes) ou que os problemas de educação, saúde, transporte e segurança que tanto afligem os brasileiros eram responsabilidade primordial da Dilma, quando são dos Estados. Agora, a mídia trabalha claramente com a perspectiva de inviabilizar o segundo mandato de Dilma e só não pede um golpe porque os militares não estão disponíveis.

A reação a isso tem que vir dos fatos (crescimento econômico, reconhecimento de erros e mudança de rumos), mas também do redimensionamento da questão da mídia. Não sugiro censura, mas a boa e velha responsabilidade aos responsáveis. Impressiona como a imprensa brasileira manipula, seleciona as informações, calunia com base no “disse, me disse” e fica por isso mesmo. Isso tem que mudar. Dentro da lei e da legalidade, mas tem que mudar. Ou o PT enfrenta esse desafio, ou então jogue a toalha. Dessa vez, os fatos inegáveis (um modelo de inclusão que está perdendo força e modificou muito pouco o Brasil, mas o suficiente para melhorá-lo) conseguiram salvar os resultados. Em quatro anos, sem uma volta ao crescimento e à melhoras tangíveis na vida do povo e sem que a mídia a tudo manipule sem consequencias, a derrota está dada. E, se não houver movimento do PT nessa direção, será merecida.

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2 comentários em “Manifesto da vitória

  1. Gilson Packer
    outubro 27, 2014

    Mais uma vez, obrigado pelo seu texto. Realmente, é preciso se mobilizar para os próximos 4 anos e não adianta esbravejar contra esse núcleo duro que se mostrou nas redes sociais. O momento é de esclarecimento contra essa forma vergonhosa e tendenciosa de manifestação da imprensa brasileira e, sem dúvida de avançar com o projeto Brasil.

  2. Edson
    outubro 28, 2014

    Bem, estamos falando de Brasil. Realmente, houve muitos fatos relacionados à corrupção em organizações federais consideradas muito prósperas, como a Petrobrás. A imprensa, aliás, todos os canais menos a Record, noticiam fatos novos a cada dia, envolvendo o alto escalão do governo, crimes contra o patrimônio sendo investigados, patrimônio este, público: do povo, então o povo está sendo roubado há anos e a imprensa sendo taxada de tendenciosa, mas cabe a quem “contar” para o povo o que está acontecendo nos limites do planalto. Aliás, como naquela história do menino que se não jogasse, levaria a bola embora, aconteceu nos limites da razão e da ignorância que, se o povo do Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida não votasse no governo que aí está deixaria de receber o benefício e até perderia seu teto, como se não fosse direito constitucional do povo ter seu teto, assim como o salário mínimo deveria suprir todas as necessidades do ser humano, como assegura a Constituição. Em certas repartições públicas os funcionários sendo obrigados a adesivarem seus carros com propagandas políticas da candidata, em cada canto da cidade se conhece alguma história dessas, será que todos mentem, inventam? Mas agora, já que ganharam, vamos trabalhar para levantar a credibilidade do país, fortalecer as instituições e prender os ladrões que estão sendo investigados, ah, precisa também devolver o dinheiro, para que este não sirva para pagar caros advogados.
    o povo precisa ganhar muito dinheiro também, o povo também gosta de dinheiro, não são só os banqueiros que gostam, este governo tem que criar oportunidades para este povo ganhar muito dinheiro, não apenas as migalhas eleitoreiras, pois oportunidades para os banqueiros ganharem muito foram criadas no decorrer destes governos petistas, vamos repartir o bolo.

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Publicado em outubro 27, 2014 por .
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