João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Notas de Berlim

Notas de Berlim

 

Depois de uma volta tumultuada devido a greve dos pilotos da Air France, posso finalmente fazer um balanço de minha última viagem a Alemanha. O óbvio não precisa ser ressaltado, ou seja, que os alemães são bastante eficientes e que a cidade é limpa, organizada, cheia de vida cultural e verde, etc. Do mesmo modo, eles são realmente mais frios, ainda que educados, do que os latinos, o que gera alguma estranheza. Até ai, nada além do óbvio.

Alguns comentários merecem, contudo, ser feitos.

  • Há um ditado que diz algo assim “Os germânicos fazem tudo o que querem, desde que seja permitido; os anglo-saxões idem, desde que não seja proibido, e os latinos também, já que não respeitam lei nenhuma”. Vi essa diferença em Berlim. Os alemães precisam realmente saber as regras para fazer qualquer coisa e, as tendo, fazem tudo com precisão. Se alguém não as conhece e/ou demonstra que são sem sentido, contudo, eles entram em parafuso ou tendem a ser até rudes. Um dia, cheguei ao Albergue onde estava e a porta do meu quarto estava completamente aberta. Nada havia acontecido, mas eu reclamei e o atendente ficou sem saber o que dizer, pois é claro que a falha era deles. Ao invés de pedir desculpas e pronto, o cara ficou nervoso e de alguma forma, o culpado acabou sendo eu mesmo. Relevei, mas, saiu do previsto, eles realmente piram, enquanto os anglo-saxões e, especialmente, os latinos, são mais flexíveis.
  • Ao mesmo tempo, os alemães recolhem sua sujeira no café da manhã, levando os pratos sujos para um lugar estabelecido; andam de ônibus e bicicleta sem problemas e, apesar de não se verem muitos lixeiros, não há um papel no chão. Em parte, isso é infraestrutura, pois há lixeiras e ciclovias por todo lado, a cidade é plana, os ônibus são confortáveis e sempre, em geral, no horário, etc. Mas, em parte, a questão é cultural.

No Brasil, andar de bicicleta ou ônibus é coisa de pobre que não consegue comprar um carro e recolher o lixo é tarefa de serviçais. A mentalidade colonial, escravista, ainda é muito forte e é só a pessoa ascender socialmente que ela quer uma empregada doméstica, pessoas recolhendo o lixo que ela produz e um carro. Acho que foi Nabuco que disse que a escravidão deixava marcas na sociedade brasileira que iam além do sofrido na carne pelos escravos. Acho que ele tinha razão.

 

  • Um dia, na AlexanderPlatz, tive a oportunidade de assistir uma manifestação da esquerda mais esquerda, marxista-leninista assumida, com direito a bandeiras da DDR, fotos do Che e tudo o mais. As bandeiras eram bonitas, mas eu fiquei me perguntando sobre as contradições entre a utopia e a realidade ou em como é muito mais fácil ficar na utopia pura, sem atuar no real.
  1. Eles proclamavam a liberdade, mas associando-a a antiga Alemanha oriental. Parece-me no mínimo complicado quando nos lembramos da Stasi, do Estado policial, etc. Eles podem ter até outro conceito de “liberdade”, mas mesmo assim….
  2. Um grupo de mulheres proclamava o fim da dominação masculina, os direitos femininos, etc., enquanto outros militantes gritavam palavras de ordem pelo multiculturalismo, pelos direitos de todos, etc. Ao lado, umas mulheres de burka. E não falo de véus ou algo assim, mas algo que cobria tudo, deixando apenas os olhos de fora. Não pude deixar de pensar na contradição e em como atender demandas multiculturais quando as de outros povos não são obrigatoriamente as mesmas. Devemos forçar aquelas mulheres a retirarem o véu, pois isso é dominação machista, ou permite-se a sua permanência, pois, afinal, é outra cultura? Mas e a liberdade delas de escolher? E, se uma pessoa emigra a outro país, não tem que se adaptar? Ou aquelas mulheres têm menos direitos do que as ocidentais? Não sei as respostas, mas nunca gostei muito do politicamente correto e ele me parece cada vez mais outra forma de discriminação.
  3. Um cartaz pedia para a Alemanha não enviar armas e tropas para combater o “Estado islâmico” na Síria e Iraque, pois qualquer ação militar é condenável, imperialista, e o pacifismo tem que ser absoluto. Fiquei me perguntando naquelas multidões de curdos, cristãos e outras minorias que estão sendo espancadas, violadas e mortas por fanáticos da pior espécie. Nem entremos aqui na discussão sobre se suas demandas são corretas ou não, quem os apoia, etc., mas o fato é que há pessoas sendo brutalizadas de forma horrível. O princípio do pacifismo implica isso, em deixar aquelas pessoas a sua sorte? Acho, no mínimo, complicado, ainda que a fronteira entre defender a dignidade humana e o imperialismo possa ser realmente tênue e complicada.

 

Enfim, reflexões soltas de uma viagem que teria sido muito boa se não tivessem me prendido em Berlim e eu tenha sofrido o inconveniente e o stress de uma situação como essa.

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Um comentário em “Notas de Berlim

  1. Gilson Packer
    setembro 19, 2014

    A cultura e os mundos. Acabo de voltar do Canadá, Toronto, e o senso de ordem e cumprimento destas é enfático. Muito próximo da sua explanação sobre Berlim. O curioso é que mesmo dentre todas as normas de conduta, os espaços para sua ruptura se faz na massa de imigrantes que se resumem em dois grandes grupos: há os que se mesclam e, aqueles que se isolam em suas comunidades. No grupo que se mistura, o sorriso de uma atendente filipina surge atrás de um balcão.

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Publicado em setembro 19, 2014 por .
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