João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Momento eleitoral

Momento eleitoral

 

 

Não poderei votar nas próximas eleições, pois estarei no exterior e, como não me registrei em tempo hábil, terei que justificar. Uma pena. Mas, posso, ao menos, compartilhar as impressões que fiquei depois do debate dessa semana e de tudo o que tenho lido e visto. Candidato por candidato, o que vejo é o seguinte, imaginando o cenário de sua chegada ao poder:

 

  • Levy Fidélis. Admito que não consigo entender muito bem o cara. Às vezes, fala algo interessante e depois solta uma pérola. Ele no poder seria, provavelmente, uma construção infinita de monotrilhos, os quais são a sua bandeira eleitoral há anos.

 

  • Eduardo Jorge. No debate, gostei muito da sua fala contra a independência do Banco Central. Independência da política, do poder legalmente constituído, mas não dos interesses financeiros, que ficariam blindados. Fora isso, ele parecia um amigão do Aécio Neves e mais interessado em um cargo no governo do amigo do que em outra coisa. O ecológico parece ter sumido da área e talvez o único diferencial do seu futuro governo seria a cor verde, que substituiria a vermelha nas bandeiras, etc.

 

  • Pastor Everaldo. Como seria de se esperar, sem nada a dizer além de um liberalismo barato (“vamos vender tudo”) e deixando escapar, ainda que tenha tentado esconder, as suas posições conservadoras mais do que conhecidas. Ele no poder seria uma soma de medidas reacionárias contra o Estado laico e de perseguição, dentro do possível, aos inimigos da sua fé, temperado com liberalismo primário. Seu governo seria uma mistura de Torquemada com Milton Friedman, mas com predominância do primeiro.

 

  • Luciana Genro. O discurso laico dela contra o Pastor Everaldo foi muito interessante e suas propostas têm pontos que atraem. No entanto, a proposta do PSTU, no limite, só poderia funcionar com uma real mudança de sistema, com o fim do capitalismo e da democracia burguesa. Se ele tentasse essa mudança, haveria reação e o partido seria alijado do poder, até mesmo pela lógica institucional democrática. Se não, num quadro de provável minoria parlamentar, teria que se adaptar e fazer um governo, no máximo, reformista, seguindo a mesma trajetória do PT. No limite, o partido funciona bem para reunir os defensores dos antigos ideais socialistas e manter a pureza desses ideais, desde que nunca cheguem ao poder.

 

  • Aécio Neves. Não há muita novidade. Seu governo seria o retorno do período FHC, com algumas adaptações. Subordinação aos Estados Unidos, ao capital financeiro e aos mercados, com o velho discurso do “choque de gestão” (que só quem vive no “Tucanistão” entre Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba sabe como é falso) e também da diminuição do tamanho do Estado. Diminuição, claro, em termos, pois haveria cortes de gastos em certas áreas para sobrar dinheiro para financiar empresas e o grande capital. Bolsa família e outros programas sociais acabariam por ser mantidos, até pela dinâmica eleitoral, para horror da classe média. O retorno aos anos 1990, contudo, parece ser a tônica.

 

  • Marina Silva. Uma socialista que nega que exista luta de classes e que considera que Chico Mendes era tão elite como a dona do Banco Itaú. Uma ambientalista que tem um candidato à vice que é ligado ao agronegócio. Uma pessoa que se diz progressista, mas que defende os evangélicos mais reacionários. Marina é uma contradição infinita, surgindo na esteira da morte do Eduardo Campos (em quem eu não votaria, mas que respeitava) como uma alternativa cool à briga esquerda/direita e PSDB/PT.

Seu governo seria um caos completo. O PSDB ou o PSTU podem ter programas de governo dos quais eu discordo ou que não considero viáveis. Mas eles têm programas e, ao menos no caso do PSDB, quadros para realizá-los e uma potencial maioria parlamentar. Marina Silva não tem nada além de frases vazias e, caso eleita, seria refém de outras forças, pois sua maioria parlamentar seria frágil. Ela atenderia aos interesses liberais (como fica claro na sua defesa da independência do BC), dos evangélicos, dos ruralistas e de outros grupos e, provavelmente, teríamos uma instabilidade total. Vejo um ar de Collor de Mello ou mesmo de Jânio Quadros se formando.

 

  • Dilma Rousseff. O nacional-desenvolvimentismo light do PT começa a dar sinais de esgotamento e a grande esperança do governo parece ser a mudança do cenário internacional para dinamizar de novo a economia. Do mesmo modo, a adaptação do partido ao cenário institucional (incluindo a moderação excessiva no campo econômico e a aliança com grupos como o dos Sarney, o PP, Renan Calheiros e outros para garantir a governabilidade) está completa. Um novo governo Dilma seria uma repetição do primeiro, com a esperança de que o cenário internacional permitisse a volta do período Lula. Grandes problemas (sistema tributário mais justo, lei de mídia, reforma educacional, etc.) continuariam sendo tocados com a barriga, a espera de dias melhores.

 

 

Nesse cenário todo, entre as várias escolhas que indicam o passado (Fernando Henrique Neves, Salvador Allende Genro, Marina Silva Collor de Mello, Pastor Everaldo Torquemada, Dilma Lula), a minha opção é pela Dilma. O nacional-desenvolvimentismo light petista não é revolucionário e nem leva o Brasil ao século XXI no ritmo desejado, mas representa melhoras e avanços que os outros iriam conter ou reverter. Se pudesse votar, iria de Dilma.

Sei que meus colegas de esquerda e direita vão me odiar pelo que opino. Serei chamado de traidor da classe trabalhadora, de esquerdista radical, de preconceituoso, etc. Mas definir-se é levar cacetada mesmo. E nem espero que alguém mude seu voto por minha causa. Mas o mínimo a fazer é deixar claro o que eu faria se eu pudesse participar da eleição. Se isso servir para alguém repensar ou mudar sua escolha, que assim seja, mas não é meu objetivo central.

 

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Publicado em setembro 5, 2014 por .
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