João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Brazil, a kind of tropical United States

Brazil, a kind of tropical United States

 

Estou no aeroporto de Guarulhos, esperando o voo para Roma. Para passar o tempo, leio uns jornais na net e vi um interessante artigo no The New York Times de meses atrás (http://www.nytimes.com/2014/04/22/opinion/cohen-an-odd-hostility-in-the-americas.html?_r=0)  no qual o autor, Roger Cohen, apresenta as tensões e problemas no relacionamento Brasil-EUA. Um ponto de vista conservador, de que o Brasil se aproxima do eixo bolivariano e outras afirmações com as quais não concordo em absoluto.

Ele traz à baila, contudo, um tópico que sempre me chamou a atenção: a impressionante semelhança entre o Brasil e os Estados Unidos. Ele cunhou até mesmo o termo com o qual batizo o post e apresenta alguns elementos para sustentar essa impressão: países imensos, onde a imigração desempenhou um papel essencial, com uma visão otimista do futuro e um forte senso de nacionalidade. Claro que ele acrescenta alguns aspectos que seriam comuns e sobre os quais não estou tão seguro (como a cultura democrática e de livre mercado), mas o artigo é interessante ao avançar esse ponto.

Na verdade, é sempre problemático buscar experiências históricas diferentes e compará-las.   Se as experiências forem perfeitamente iguais, não haveria porque comparar. Se forem totalmente diferentes, idem. O interessante é quando encontramos algo tão próximo e tão distante que permite refletir sobre ambas, ou múltiplas, realidades.

No caso brasileiro, é claro que nossos vizinhos sul-americanos são um bom padrão de comparação, já que vivenciaram uma história no mínimo semelhante. Entre eles, a Argentina é muito interessante, especialmente se compararmos a história argentina com a do centro-sul brasileiro. Portugal e outros países da Europa Latina (como Espanha ou Itália) também apresentam trajetórias sociais e políticas muito próximas. E os contínuos contatos (culturais, populacionais, econômicos, etc.) da sociedade brasileira com os vizinhos sul-americanos e a Europa também são tanto efeito como reforçadores dessas proximidades e semelhanças.

Os Estados Unidos são, contudo, um país com quem realmente a comparação faz todo o sentido. Os EUA são, em boa parte, um espelho do Brasil e vice-versa e isso talvez explique a relação ambígua (admiração e despeito; proximidade e distanciamento) entre os dois países e a enorme atração pelo “American way of life” entre a classe média brasileira. Claro que há elementos concretos a serem considerados (a relativa distância geográfica entre ambos, que relativiza conflitos e problemas;  a expansão da cultura americana pelo mundo todo pós-1945, etc.), mas a visão de que os americanos são como nós gostaríamos de ser talvez tenha a ver também com esse fato, de sermos mais parecidos do que diferentes.

Claro que as diferenças existem e são tantas que seria inútil elencar a todas. Basta lembrar o papel central dos EUA no mundo frente ao periférico do Brasil; a construção de uma sociedade moderna e industrial na América do norte enquanto o Brasil avançou muito pouco nessa direção, a diferente construção do Estado, a questão do individualismo, etc. Mas as proximidades também impressionam. Além das mencionadas pelo autor citado, lembraria a forte herança da escravidão, a tolerância muito maior (em diferentes escalas) com a desigualdade social e racial, o renascimento religioso (especialmente protestante), a resistência e/ou desprezo pelos intelectuais e pela alta cultura (ainda  que, nos EUA, estejam as melhores universidades do mundo), o consumismo (ao menos nas classes altas brasileiras), etc. Não fico realmente espantado que a classe média brasileira adore ir a Miami e Nova York, e apenas para comprar.

Na verdade, Brasil e EUA são, a meu ver, expressões da cultura e da tradição europeias nas duas Américas. Expressões, não cópias nem reproduções as mais perfeitas possíveis, como os europeus tentaram fazer no Canadá ou na Nova Zelândia. Ambas sociedades foram cidas ram expressando as tradições europeias, mas já adaptando-as à realidade escravista, de conquista do território dos nativos, etc. Hoje, tais sociedades já se distanciaram muito dessa origem, como seria de se esperar. Mas a história de ambos continua a influir no seu presente e essa história tem alguns pontos muito parecidos. Se um dos principais problemas dos Estados Unidos e do Brasil é a desigualdade racial e, acima de todas, a social, e isso tem a ver com experiências históricas muito parecidas, como não considerar os EUA dignos de comparação com a realidade nacional?

Talvez o Brasil não seja apenas os EUA tropicais. Talvez seja também um México sem a questão indígena tão acentuada,  uma Argentina que se modernizou mais, uma Angola que recebeu maciça imigração europeia e asiática posterior  ou um Portugal maior. Mas talvez seja válido  pensar nessa possibilidade de  comparação e reflexão. Num simples post, isso não pode ser aprofundado, mas valeria a pena.

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Publicado em junho 14, 2014 por .
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