João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Desigualdade e concentração de renda

Dentre os jornalistas da “Folha de S. Paulo”, hoje, um dos que ainda aprecio é o Clóvis Rossi. Claro que não compartilho tudo o que ele pensa ou escreve, mas algumas coisas para as quais ele tem chamado a atenção sempre me pareceram corretas, como a  suposta diminuição da desigualdade de renda no Brasil. Em artigo publicado dias atrás (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2014/04/1446922-desigualdade-caiu-pura-lenda.shtml) ele ressalta novamente  isso, trazendo à discussão o livro de Thomas Piketty, o qual, ao abordar o caso dos Estados Unidos e de outros países do mundo desenvolvido, indica como a desigualdade continua crescendo, e em níveis alarmantes.

Ele também cita um economista da UFRJ, Reinaldo Gonçalves, o qual afirma que a redução da desigualdade na era Lula/PT tem mais a ver com o reequilíbrio de renda (salários, pensões, benefícios, etc.) dentro da classe trabalhadora do que com uma real mudança estrutural. Quando se coloca no papel as rendas da propriedade (juros, lucros, aluguéis, etc.) o cenário é muito menos róseo e indica que a desigualdade brasileira foi apenas arranhada.

Percebe-se isso com facilidade quando se observa o que aconteceu nos últimos anos. Graças ao crescimento econômico, a diminuição do desemprego, transferências de renda e maior acesso ao crédito, a classe trabalhadora teve acesso a um nível inédito de consumo, o que foi fundamental, aliás, para impedir o país de cair numa crise mais séria. Esse nível de consumo, contudo, é muito pequeno e está sempre no fio da navalha. Bastará uma crise nas finanças estatais ou um aumento da inflação e do desemprego para a renda dessa classe retornar para o padrão anterior, de mera subsistência. Dizer que esse grupo é uma “nova classe média” é realmente uma bobagem, pois seus membros não têm o capital cultural, educacional ou algumas propriedades mínimas para se sustentarem em caso de uma mudança conjuntural.

Esse pequeno avanço já foi suficiente, contudo, para transtornar a infraestrutura de produção e consumo nacionais, tanto que agora se veem muito mais congestionamentos em estradas e aeroportos ou dificuldades para conseguir ser atendido nos shoppings do que antes. Um país que estava acostumado a atender apenas uma pequena parcela da sua população não consegue dar conta de uma mudança, por menor que seja, nos padrões de renda e consumo e o resultado está ai. Além disso, essa pequena mudança já deixou a classe média profundamente irritada e incomodada.

Essa mudança na nossa sociedade nos últimos 10 anos é a se comemorar, pois é um primeiro passo importante, mas ficar nisso não vai dar certo. Não apenas essa melhora é, como visto, potencialmente temporária, como reais mudanças vão demandar serviços e bens aos quais poucos brasileiros têm acesso: saúde e educação de qualidade, mobilidade urbana, acesso à casa própria sem ter que pagar juros absurdos ou com essa “bolha imobiliária” que incha os preços, etc. Não espanta que muitas pessoas tenham ido às ruas pedindo isso. Dar crédito a uma pessoa para ela comprar um celular é uma coisa. Fornecer a ela os instrumentos mínimos para ela poder avançar na vida realmente é outra.

A mudança foi tão conjuntural, mínima, que, como indica o artigo de Rossi, a real diferenciação de renda não foi modificada. Um engenheiro continua ganhando mais do que um pedreiro hoje do que em 2003, mas a diferença é menor. No entanto, quando se coloca na equação as propriedades e suas rendas (aluguéis, juros da dívida pública, aplicações, etc.) , a diferença entre o 1% mais rico e o resto continua extremamente alta, senão maior.  No exemplo acima, se agora o engenheiro está ganhando 10x o salário de um pedreiro quando, há 20 anos, ganhava 20x mais e isso o irrita, a equação muda de figura se esse engenheiro for herdeiro de uma família que lhe deixou casas para alugar, dinheiro aplicado no banco em juros da dívida pública, etc. Provavelmente, se antes a renda dele era de 1000x a de um pedreiro comum, hoje está em 1500 ou 2000x e crescendo.

Fica aqui o limite claro do governo do PT. Como indicado no artigo, 0,4% do PIB nacional paga o Bolsa Família, atendendo quase 14 milhões de pessoas, enquanto 5,72% paga os juros da dívida pública, que enriquecem ainda mais, em geral, aqueles 2 milhões mais ricos. Ou seja, o PT acertou numa medida conjuntural, mas não mexeu na estrutura da máquina pública, grande instrumento de redistribuição de renda de cima para baixo ou de baixo para cima. A saúde e a educação também receberam um aumento substancial de recursos, mas não o suficiente para alavancar uma mudança estrutural. Ao contrário dos que dizem que o PT é um partido comunista ou bolivarista querendo fazer do Brasil uma Cuba, o que temos é um partido extremamente moderado, que hesita  em seguir até o modelo dos já moderados social-democratas europeus.

Nas próximas eleições, não tenho dúvidas de que votarei no PT, até porque as alternativas seriam ainda piores, revertendo até essa pequena melhora que vivenciamos. Mas o PT precisaria era de mais ousadia, e não de moderação, para enfrentar seus críticos. Entendo que a moderação é o único jeito de vencer eleições e ficar no poder num país tão conservador. Depois, essa maior ousadia que prego não é abolir o sistema capitalista ou a organização social tradicional brasileira, mas apenas aprofundar o processo visando uma real distribuição de renda. No limite, isso é, aliás,  um elemento de avanço do próprio capitalismo nacional. Temo que, se continuar na mesma linha, o  partido acabe por cair no que chamo do “conto da esquerda” depois da queda do muro de Berlim.

Por “conto da esquerda”, defino o que aconteceu com boa parte dos partidos de esquerda dos anos 1990 para cá. A direita foi hábil o bastante para convencer a todos, até a esquerda, que a queda do muro de Berlim e da utopia comunista significava o fim de toda e qualquer esquerda, mesmo a mais moderada. Como resultado, os partidos de esquerda caminharam desesperadamente para o centro, para tentar se reinventarem. Nesse processo, contudo, não atingiram o eleitor de direita (que ainda desconfia deles) e perderam votos na esquerda. Não espanta como, por exemplo,  Hollande, na França, seja tão mal avaliado hoje. Ao assumir, prometia ao menos algumas mudanças (pequenas que fossem) na austeridade liberal em vigor, mas não fez nada ou até aumentou sua adesão a ela para ganhar pontos com os empresários. A direita continua não gostando dele, pois ele é, ao menos em teoria, socialista. A esquerda ou o ignora ou o vê com péssimos olhos, pois não mudou nada.  E, dessa forma, sua popularidade vai para baixo.

O PT também seguiu esse movimento, mas, num país tão desigual, o mínimo que lhe restou dos ideais da esquerda lhe permitiu ganhar espaço e se tornar o mais perto que temos da socialdemocracia, enquanto empurrava o PSDB para o centro-direita. O problema é que, agora, esse mínimo talvez não seja mais suficiente para reais melhoras e que, num momento futuro, ele acabe por se confundir tanto com os outros partidos que os eleitores não vejam mais diferenças entre eles, o que seria trágico. Por agora, Dilma é a melhor opção. Mas, para o PT continuar a ser uma opção de esquerda real, mais ousadia será necessária.

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2 comentários em “Desigualdade e concentração de renda

  1. Roger
    maio 2, 2014

    Ótima análise! Parabéns pelo blog, qual desconhecia e agora está na minha lista de favoritos.

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Publicado em maio 1, 2014 por .
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