João Fabio Bertonha

fabiobertonha@hotmail.com

Hitler em Mato Grosso? Como não escrever História

http://www.hipernoticias.com.br/TNX/imprime.php?cid=32355&sid=180

Essa matéria fala de uma historiadora do MT que escreveu um livro sobre como Hitler terminou seus dias em Mato Grosso, num lugar chamado Nossa Senhora do Livramento.

Eu até acho a pessoa bem intencionada, mas realmente ela não sabe como funciona o método histórico. Ela entrou, provavelmente sem saber e com boas intenções (ao contrário de muitos, que o fazem para ganhar dinheiro), num dos muitos filões a respeito do nazismo na cultura contemporânea. A sexualidade de Hitler, o ocultismo e o satanismo nazista e a fuga de Hitler são alguns dos temas favoritos. Eu coleciono livros sobre isso e tenho vários sobre Hitler na ilha de Marajó, na Patagônia, no Peru, na própria Berlim, na Namíbia e por ai vai. Ver, a respeito, aliás, dois textos meus e a interessante dissertação do Marcos Meinerz sobre o imaginário do IV Reich na América do sul.

https://periodicos.ufsc.br/index.php/esbocos/article/view/588

http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/5919

http://www.humanas.ufpr.br/portal/historiapos/files/2013/05/MarcoMeinerd.pdf

 

O método histórico permite identificar as falhas e o problemas na hipótese e separar o joio do trigo. Vc quer acreditar que Hitler passou seus últimos dias no MT? Maravilha. Mas os problemas surgem:

1) Ela ouviu um boato de que Hitler morava lá. Bom, boatos existem e de monte, mas levar boatos a sério sem confirmação é um perigo imenso.

2) Ele teria usado o nome falso de Adolph Leipzig. O cara está fugindo e mantém o mesmo nome? E Leipzig teria sido adotado porque é a cidade de nascimento de Bach, que Hitler adorava. Provavelmente, o compositor referido é Richard Wagner, que Hitler realmente adorava. E Bach morreu em Lepzig, mas nasceu em Eisenach. De qualquer modo, o cara ia deixar pistas assim com o Mossad atrás dele?

3) Hitler trabalhando de agricultor? Não conseguiria imaginar um ofício melhor para ele morrer de fome, ele que nunca colocou a mão numa enxada na vida. E ele teria se acidentado trabalhando em 1986, quando teria 97 anos. Haja saúde para alguém tão doente em 1945.

4) Os documentos dela mostram que, de fato, um alemão chamado Adolf Leipzig foi tratado de um ferimento na perna em 1986. Daí a dizer que ele era Hitler, vai uma longa distância. Só acreditando em boatos mesmo.

5) O que Hitler iria fazer lá, numa pequena cidade do MT? Ele teria vindo da Argentina com um mapa de uma mina de ouro dada pelo Papa Pio. Achou a mina, mas não descobriu o segredo para entrar nela e teria se frustrado, ficando em Livramento, onde ficou com uma mulher morena até o fim.

Hitler mineiro e terminando a vida ao lado de uma morena brejeira do MT? É tão fora de tudo o que sabemos de Hitler que nem dá para comentar. Seria como se descobrissemos que o Stalin não morreu em 1953, mas que foi clandestino para os EUA para trabalhar numa rede de fast-food…

Enfim, cada um no mundo acredita no que quiser: que o nazismo era de esquerda, que o comunismo vai se implantar no Brasil através do Foro de São Paulo, que o Chaves  e o Chapolim colorado (além do Harry Potter) são manifestações satânicas, etc. Mas o método histórico, o entendimento de como trabalhar com fontes e muita leitura para entender o contexto ajudam a separar o joio do trigo. E o mais legal é que te permite ver a História não como ato de fé, mas de reflexão intelectual. Se a mulher voltar da Alemanha com a prova que o DNA era do Hitler, eu jogo a toalha e reconheço que errei, sem traumas. Mas eu acho mais fácil que seja o DNA do coelhinho da Páscoa ou do Chupacabra….

 

 

 

 

 

 

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Publicado em janeiro 19, 2014 por .
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